VOCAÇÃO PARA A INVASÃO - PARTE 2

VOCAÇÃO PARA A INVASÃO - PARTE 2

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Blog - Curiosidades
- 01/07/2021 17:24:30

Em 1950, São Paulo passava dos 2 milhões de habitantes e alcançava em número a população do Rio de Janeiro; via seus novos meios de comunicação ganhando alcance jamais vistos (naquele ano, eram fundadas a TV Tupi, de Assis Chateaubriand, e a Editora Abril, de Victor Civita); era inaugurada a nova estrada que ligava São Paulo ao Rio de Janeiro, a Via Dutra, que encurtava a viagem para apenas seis horas, em 405 quilômetros muito menos atribulados do que a velha Rio-Santos. Em 1953, seria inaugurada a indústria automobilística no Brasil, com a abertura das fábricas da Volkswagen e da Ford no bairro do Ipiranga. Naquele mesmo ano, a cidade ganhava seu Museu de Arte Moderna (mais tarde renomeado MASP). Em 1954, aproveitando a efeméride do quarto centenário da fundação da cidade, São Paulo criava sua própria História e ganhava sua Catedral (a da Sé) e seu Parque (o do Ibirapuera), para onde se mudara a Bienal de Arte, que, naquele momento, exibia a Guernica de Picasso. Ao fim de 1954, São Paulo já passava de 2,8 milhões de habitantes e era, oficialmente, a cidade mais populosa do Brasil.
Naquele momento de pujança econômica, reinvenção urbana e crescimento desenfreado, havia uma e apenas uma paixão que unia a cidade: o Sport Club Corinthians Paulista, que se tornava o primeiro fenômeno popular genuíno da cidade de São Paulo. Os jornais, que então já cobriam diariamente os treinos dos times, e as transmissões ao vivo das partidas pelo rádio, amplificavam a experiência de acompanhar o futebol para um público muito maior do que as quarenta, cinquenta, às vezes até sessenta mil pessoas que se acotovelavam no Pacaembu para acompanhar um clássico entre Corinthians e algum dos seus rivais. Com um time que vinha vencendo títulos desde 1951 (quando foi Campeão Paulista), incluindo três dos cinco primeiros torneios Rio-São Paulo (1950, 1953 e 1954) e a Pequena Taça do Mundo de 1953, quando venceu Roma e Barcelona, o Corinthians era mais do que nunca o time da moda. Apesar da crescente popularidade, o clube soube manter a identidade original de time do povo, mantendo sua sede (conhecida popularmente como Parque São Jorge) no Tatuapé, na Zona Leste, evitando o vício de contratar medalhões consagrados – como fizera o São Paulo com Leônidas da Silva e Zizinho – e recrutando jogadores da várzea, como o meia-atacante Luizinho (que jamais saíra da Zona Leste ou vivera mais distante do que alguns quarteirões do Corinthians), lançando pratas-da-casa como o atacante Rafael e garimpando jovens talentos em times pequenos, como o centroavante Baltazar e o goleiro Gilmar dos Santos Neves (ambos vindos do Jabaquara). A crescente população de migrantes nordestinos que chegava a São Paulo durante a década de 50 encontrava a região central da cidade inacessível e se via empurrada a buscar moradia na periferia da cidade – por exemplo, o bairro de São Miguel, na Zona Leste, ficou conhecido como “Bahia Nova”, tendo partido de 7 mil habitantes em 1940 para 140 mil em 1960. Toda essa gente não tinha dúvida sobre onde encontrar um lar em São Paulo: não em uma sede social como o Parque São Jorge ou em um estádio como o Pacaembu; sua casa era a abstrata ideia de ser corinthiano – por isso, a necessidade de vestir a camisa do time ou da torcida organizada; por isso, o início das saudações que substituíam de um “bom dia” a um “muito obrigado”, como o “vai Corinthians!” Apenas um entre tantos milhões de nordestinos que vieram a São Paulo em busca de emprego na construção e na indústria, o ex-garimpeiro cearense Raimundo de Magalhães relembrou, para o livro Corinthians:  suas histórias, suas glórias, lançado em fascículos pelo clube por ocasião do seu 600 aniversário, da sua vida na capital paulista e do papel do Corinthians na sua adaptação, especificamente em 1954:
“Eu era operário e ia de bonde para a Fazendinha. Ia com minha mulher, que a morte levou. Vi quando o Corinthians marcou 103 gols. Vibrei com Roberto e Idário, e com Cláudio e Luizinho. Quando, anos mais tarde, vivia sozinho nos seringais, distante dos meus, de tudo isso eu me recordava. E relembrava, saudoso, do meu Corinthians. Este distintivo, se não for comigo para o túmulo, darei a um de meus filhos, porque os ensinei a ser corinthianos também. O Corinthians foi o clube que me acolheu, na juventude, oferecendo o que eu, como homem pobre, não podia ter: a sua sede grandiosa.”
O Campeonato Paulista de 1954, o do IV Centenário, foi revestido de uma importância hoje incompreensível: “um título que valerá por cem anos”, dizia-se na época. Aquilo aconteceu no momento exato em que o Corinthians tinha provavelmente o melhor time do Brasil e certamente o melhor time da sua História, contando com o primeiro ataque brasileiro a superar a marca dos cem gols em uma temporada. Os três principais ídolos daquela equipe eram então tão icônicos, que cada um era acompanhado por um epíteto (que hoje soaria como codinome de um super-herói da Marvel) e de suas próprias marcas hiperbólicas: Luizinho era o Pequeno Polegar (e o segundo jogador que mais vestiu a camisa do time, com 603 jogos); Cláudio, o Gerente (e maior artilheiro do Corinthians, com imbatíveis 305 gols); e Baltazar, o Cabecinha do Ouro (segundo maior artilheiro da história do time, com 266 gols, 71 deles de cabeça). A final, já em fevereiro de 1955, contra um Palmeiras vestido de azul (supostamente sob orientação de uma mãe-de-santo), foi a cereja do bolo: segundo o narrador Fiori Giglioti, que narrou a partida ao vivo do Pacaembu, “São Paulo viveu, naquela semana, uma semana belicosa, perigosa. Não se falava outra coisa que não o jogo.” Ao fim do empate que conquistou o título que valeria por cem anos, a torcida começou sua ocupação pelo gramado do Pacaembu (invadir o campo à caça dos ídolos era, então, uma tradição), depois migrando a pé – e acompanhada pelos jogadores – até o Vale do Anhangabaú, onde uma marchinha composta por Lauro D’Ávila em 1952, em comemoração ao título paulista do ano anterior, finalmente ganharia tração, sendo repetida infinitamente noite adentro, a ponto de se tornar, imediatamente, a canção preferida dos corinthianos. No ano seguinte, aquela marcha, Campeão dos Campeões, seria gravada por Osny Silva, na Rádio Bandeirantes, e oficializada como o Hino do Corinthians (a gravação que todos conhecemos, no entanto, é a da Orquestra e Coro Cid, no disco Hinos dos Campeões, de 1977). O Corinthians, como a cidade que o abrigava, criava seus símbolos e inventava sua História. E a torcida espontaneamente alimentava sua mitologia própria, com seu extravagante gosto por invadir o espaço público ganhando novas proporções.

Texto: Ricardo Garrido
Crédito das Fotos: Gazeta Esportiva / Acervo Gazeta Press
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