VOCAÇÃO PARA A INVASÃO - PARTE 1

VOCAÇÃO PARA A INVASÃO - PARTE 1

Postado em:
Blog - Curiosidades
- 01/07/2021 17:35:57

Quando pensamos naquelas imagens de centenas de ônibus congestionando a via Dutra e do Maracanã dividido ao meio entre as torcidas de Corinthians e Fluminense em 1976 – ou ainda sobre o repeteco da Invasão ao Rio no Mundial de 2000 e a tomada do Japão em 2012 –, pensamos: por que o Corinthians? Por que a Fiel?
O livro O Diário da Invasão, de Ricardo Garrido, reconta dia a dia a Invasão Corinthiana com detalhes e depoimentos dos protagonistas daquele momento histórico – jogadores, cartolas, torcedores – e dá dicas dos elementos da alma corinthiana que criaram aquele evento único na história do futebol.
E o que é essa “alma corinthiana”? No que ela se diferencia das outras torcidas. A resposta, claro, está na História.
Esta série de posts repassa os cento e onze anos de histórias e eventos que moldaram o caráter da Fiel Torcida e criaram sua irresistível vocação para ocupar o espaço alheio.
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No início do Século 20, o futebol chegava ao Brasil e ganhava tração imediata. Aqui, tal como na Inglaterra, o esporte ainda era envolto pelos ideais do amadorismo e da formação de caráter das elites que liderariam o mundo moderno e, portanto, era exclusividade de jovens das famílias mais ricas, frequentadores das universidades tradicionais e membros dos country clubs – um esporte de cavalheiros, dizia-se. Assim começou o futebol no Brasil, trazido por um jovem brasileiro de nome e pais britânicos, que acabava de voltar de dez anos de estudos em Southhampton: Charles Miller. O revolucionário jogo que trazia consigo na bagagem (na forma de duas bolas de capotão, uma bomba para enchê-las, um par de chuteiras e um livro de regras) conquistou primeiro a comunidade de europeus endinheirados em São Paulo e seus clubes esportivos: O São Paulo Athletic Club (SPAC), clube da colônia britânica fundado pelo próprio Miller; a Associação Atlética Mackenzie, formada por alunos do colégio; o Germânia (atual Pinheiros), clube da colônia alemã fundado por um ex-jogador de futebol chamado Hans Nobliling; o Internacional, que abrigava ingleses, alemães e franceses. Todos esses clubes foram fundados entre 1895 e 1899. Sendo um esporte da elite, é claro que as famílias brasileiras tradicionais, hoje conhecidas como quatrocentonas e à época controladoras da economia e da política do país, logo adotaram o esporte. Em 1900, era fundado o Clube Paulistano, frequentado por sobrenomes como Silva Prado, Álvares Penteado, Rodrigues Alves, Morais Barros e Cerqueira César. O grande vinco no tecido social da época era a tensa convivência entre os imigrantes que enriqueciam com a incipiente indústria local – como os italianos Francisco Matarazzo e Rodolfo Crespi e os dinamarqueses da família Von Büllow, fundadora da Antarctica – e as famílias tradicionais paulistas. Os industriais europeus (e a eles se juntariam famílias libanesas que prosperavam no setor têxtil) rapidamente ocuparam parte dos primeiros casarões da Avenida Paulista, inaugurada em 1891, dividindo espaço com os quatrocentões. Na política, no entanto, não tinham vez – ali era território exclusivo dos brasileiros donos do café. E, como política se discutia nos clubes, ali também não se misturavam as duas elites.
No entanto, os novos ocupantes da chique região da Paulista instalavam suas fábricas no Bom Retiro, no Brás, na Moóca e na Pompeia. E empregavam imigrantes, que vinham aglomerados nos navios em busca de emprego como operários no Brasil. Vindos da Europa, esses imigrantes já admiravam o futebol e se atreviam a formar seus próprios times para embates nos finais de semana em campos improvisados às margens do Rio Tietê – inaugurando a saudável tradição paulista do futebol de várzea.
Numa noite em setembro de 1910, após terem trabalhado durante o dia na estação de trem ou no comércio do bairro do Bom Retiro, cinco operários (dois pintores de parede, um cocheiro, um trabalhador braçal e um sapateiro), inspirados pela excursão vitoriosa do Corinthian Team – um selecionado de estudantes e multiesportistas de Cambridge e Oxford que era a base da Seleção Inglesa – por terras brasileiras, fundaram um time de várzea que emprestaria da nobreza inglesa o nome, que receberia apoio financeiro da classe média do bairro (um barbeiro, um alfaiate, um dentista e outros cinco comerciantes que se tornaram os sócios-fundadores) e que seria definido pelo primeiro presidente, o alfaiate Miguel Bataglia, como o time do povo: “o Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”. Uma rápida escalada ao longo dos seus três primeiros anos – vencendo times de funcionários das empresas locais e amontoados de jovens estudantes, além de rivais recém-fundados nas cidades próximas, como a Ponte Preta, de Campinas, e o Paulista, de Jundiaí – levou o Corinthians à condição de aspirante a disputar a Liga Paulista de Futebol, que, em 1913, abriu uma seletiva para incluir um time de várzea para enfrentar Germânia, Internacional, Americano, Ypiranga (à época, o time de Arthur Friedenreich) e o Santos, que também estreava ali. A inclusão de clubes populares levou o elitista Paulistano a romper com a Liga e a fundar uma competição paralela, e o Campeonato Paulista só seria unificado novamente depois de quatro anos (quando o Corinthians já tinha dois títulos). O Corinthians começava a pegar gosto por ocupar lugares para os quais não havia sido convidado.
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Ao longo das décadas seguintes, o futebol se consolidou como o esporte e passatempo preferido do povo, que se apegava aos clubes fundados por imigrantes e operários, como o Corinthians e seu já rival Palestra Itália (futuramente Palmeiras), que rapidamente adquiriam a hegemonia local. O São Paulo Futebol Clube, formado por sócios do Paulistano insatisfeitos com a saída do clube dos campeonatos de futebol, em 1929, era a base avançada da elite no meio daquilo que já era o esporte do povo. Em janeiro de 1931, o Corinthians disputava um jogo inusitado para fechar uma década vitoriosa: após o tricampeonato de 1922 a 1924, o Corinthians jogaria em Santos para fechar o segundo tricampeonato de sua História, de 1928 a 1930. Aquela, numa época em que não havia carros, ônibus e nem mesmo estradas como as vias Anchieta e Imigrantes, foi a primeira invasão corinthiana: os torcedores corinthianos lotaram oito trens de dez vagões cada, e desceram a serra rumo ao litoral. Conforme o depoimento do histórico torcedor Francisco Piciocchi, o Tantã, após a vitória de 5 a 2 em cima dos anfitriões e de uma das primeiras invasões de campo de que se tem notícia (em plena Vila Belmiro), muitos torcedores comemoraram bebendo e cantando, sem camisa, em cima dos vagões do trem – alguns chegariam a morrer de pneumonia e tuberculose.
Em 1940, o Corinthians já somava onze títulos paulistas e era novamente tricampeão do estado, tendo passado mais de dois anos inteiros sem uma única derrota. Em 27 de abril daquele ano, incrustrado num vale que tinha sido concebido e promovido pela Companhia City como o “bairro mais belo e aristocrático de São Paulo” – e que, de fato, estaria em breve cercado por palacetes habitados por novos e velhos ricos da metrópole que já beirava o milhão e meio de habitantes –, era inaugurado o Estádio Municipal do Pacaembu, no auge do Estado Novo, com a presença de Getúlio Vargas e de uma profusão de políticos e interventores nomeados pelo ditador. Sua fachada emulava a grandiosidade simétrica de pilares gigantescos do Estádio Olímpico de Berlim, construído para sediar as Olimpíadas de 1936 e para propagandear os ideais do regimes nazista. Os discursos proferidos na sua abertura também se assemelhavam às ditaduras da moda: Vargas classificava o desfile de abertura como uma “demonstração da mocidade forte e vibrante, índice eugênico da raça”. A programação da abertura passava longe do futebol e se empenhava para oferecer ao público de 50 mil pessoas a cópia mais fiel possível da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos patrocinados por Hitler: delegações esportivas de alguns países vizinhos e de clubes paulistanos se alternavam num desfile militar-esportivo. Os clubes, claro, eram os da elite paulista: Paulistano, Mackenzie, Germânia – e o São Paulo, mais enturmado ali do que com o populacho com quem competia no futebol aos finais de semana. Não por acaso, segundo a Folha de Manhã, o São Paulo foi o clube mais aplaudido naquele evento (e, também não por acaso, anos mais tarde o estádio seria rebatizado com o nome de um ilustre dirigente são-paulino, Paulo Machado de Carvalho).
No dia seguinte à inauguração, o futebol chegava ao Pacaembu, em rodada dupla com vitórias dos times paulistas, primeiro o Palestra Itália sobre o Coritiba, depois o Corinthians sobre o Atlético Mineiro. E, assim, em apenas 24 horas, era encerrado para sempre o domínio da aristocracia sobre o Estádio Municipal do Pacaembu. Ao mesmo tempo, era registrada, ali, a primeira e duradoura ocupação do espaço alheio pela torcida do Corinthians. Por 74 anos, de 1940 a 2014, muitos times jogaram no Pacaembu como mandantes, incluindo o Palmeiras, o São Paulo, o Santos e a Seleção Brasileira – mas ninguém se atreveria  a contestar o fato de que aquele estádio, de propriedade da Prefeitura de São Paulo, teve um único e espaçoso dono: a torcida corinthiana. Em meados dos anos 1990, um visitante não iniciado ficaria surpreso ao encontrar o Pacaembu envelopado de Corinthians. Distintivos do clube, seu nome e suas cores adornavam entradas, lanchonetes e até banheiros. Onde originalmente havia uma concha acústica para concertos de música clássica, agora fora erguido o Tobogã, uma feia estrutura de concreto destoante do todo, mas que abria espaço para mais 10 mil fiéis por jogo. O estádio de arquitetura majestosa, que era equipado com um clube exclusivo para os moradores das mansões do bairro, lotado numa praça que carregava o nome de Charles Miller e que ostentava, como único monumento, uma estátua da tenista Maria Esther Bueno, havia sido tomado, reclamado e tombado pela torcida do Corinthians, e seria para sempre sua “saudosa maloca”, expressão da canção do corinthiano Adoniran Barbosa, adotada como tema da despedida da Fiel ao Pacaembu em 2014, quando foi inaugurada a Arena Corinthians.


Texto: Ricardo Garrido
Crédito das Fotos: Gazeta Esportiva / Acervo Gazeta Press
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