VOCAÇÃO PARA A INVASÃO - PARTE 3

VOCAÇÃO PARA A INVASÃO - PARTE 3

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Blog - Curiosidades
- 01/07/2021 17:12:07

O auge de popularidade e de resultados nos anos 50 foi a antessala do impacto da Era Pelé na vida do Corinthians. No ano seguinte à conquista do campeonato do IV Centenário, o adolescente Edson Arantes do Nascimento estrearia e daria início à mais sofrida, mas também a mais interessante parte da saga corinthiana. A Fila (como ficou conhecido o longo período de 23 anos sem título) foi o combustível que faltava para disparar a última centelha que faria o fenômeno da fidelidade da sua torcida se tornar um incêndio descontrolado e irresistível, dando o toque final à identidade de uma base que, então, era formada em sua maioria por nordestinos que tinham vindo tentar a vida na cidade grande. Dos seus sub-empregos no centro da cidade e das ruidosas reuniões de operários no ABC e do alto dos andaimes bambos nas obras sem o menor cuidado com a segurança dos seus trabalhadores, aquela gente toda se unia em torno de uma melancólica e romântica visão do time tão amado e tão incapaz de retribuir o investimento emocional dos seus torcedores. A torcida do Corinthians se tornava a Fiel (embora não se saiba precisar exatamente quem cunhou o termo ou quando ele foi empregado pela primeira vez, foi a partir de 1961 – um ano particularmente ruim em que o time fora apelidado de Faz-me Rir – que os jornais, impressionados com o cóntínuo apoio da toricda, começou a chamá-la assim, com “F” maiúsculo), e a Fiel crescia e incrementava seu repertório.
Atentos a esse fenômeno popular em meio a um conturbado momento político, um grupo de estudantes fundou, em 1969, um misto de organização política com confraria de amigos, e a batizou de Gaviões da Fiel. O objetivo primeiro era conseguir interromper a ditadura de Wadih Helu, que desde 1961 havia se apossado do clube. A torcida também trouxe mais impacto nos estádios, com bandeiras maiores, uniformes, cantos fortes – e uma bateria que seria multicampeã do desfile de blocos até se tornar uma escola de samba. Em meados dos anos 70, à medida que o fenômeno Corinthians se tornava matéria de teses universitárias e assunto de cadernos culturais dos jornais, a sede da Gaviões da Fiel na rua Santa Ifigênia se tornaria ponto de encontro de torcedores. É de lá que partiriam os ônibus lotados de torcedores para acompanhar o time, onde quer que ele jogasse.
Quando o Corinthians perdeu a final de 1974 para o Palmeiras – numa traumatizante tarde que carimbou o vigésimo aniversário sem título e que selou a saída do maior jogador a ter vestido a camisa do time, o tricampeão mundial Roberto Rivellino, então o legítimo herdeiro da camisa 10 de Pelé na Seleção Brasileira –, a festa estava armada e o Vale do Anhangabaú foi melancolicamente ocupado pela torcida do derrotado, e não do vencedor.
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Reunião muito diferente seria a de três anos mais tarde quando, em outubro de 1977, um dos times do Corinthians mais pretos de sua história (8 jogadores dos 11 que entraram em campo na final eram negros ou pardos) daria fim à Fila e finalmente corresponderia a devoção de sua torcida, que então paralisava o trânsito e ocupava não só os lugares tradicionais, como o Vale do Anhangabaú e a Avenida São João, mas também novos alvos: a Avenida Paulista – criada quase um século antes para abrigar as mansões dos quatrocentões e dos industriais, e que já tinha se tornado o centro financeiro do país, sediando bancos nacionais e estrangeiros – já havia sido escolhida como local oficial de comemoração da torcida do Corinthians (e, em pouco tempo, também de outros times). No dia seguinte à final, uma quinta-feira, a Paulista ainda estava fechada para os carros e ocupadas por alvinegros em festa com suas bandeiras. A bem da verdade, não há notícias de que tenha sobrado um metro quadrado das calçadas e ruas paulistanas que não tivesse sido amassado pelos joelhos em penitência dos pagadoras de promessa, ou sujados com os trabalhos e oferendas perpetrados pelos místicos, ou sido simplesmente profanado pelo alegre sambar do povo que, finalmente, vira chegar seu dia.
Estava claro, ali, que o torcer pelo Corinthians se diferenciava das outras torcidas por uma combinação única de diversos ingredientes, que, sozinhos, não fazem uma Fiel: não era apenas o seu numeroso contingente (afinal, o Flamengo e alguns times do México, como o América e o Chivas, também contam com torcidas de mais de trinta milhões de pessoas), nem sua insana devoção (afinal, insanas mesmo são tantas torcidas de times espalhados pelo Brasil e pelo mundo que jamais tiveram o protagonismo e títulos às pencas  que o  Corinthians teve desde sua fundação), e nem mesmo sua alardeada fidelidade (afinal, mesmo o seu principal arquirrival já deu mostras de resistir a longos períodos sem títulos e ainda à humilhante posição de ser o único time grande de São Paulo a não ter um título mundial). Era tudo isso junto, e com um toque especial, um molho secreto, um arremate que nenhuma outra torcida do mundo chegou a desenvolver: o seu gosto por invadir o espaço público, mas não só as avenidas e calçadas em que qualquer um pode andar – a torcida do Corinthians gosta de se apossar extravagantemente de espaços que não são seus. O estádio de feições fascistoides construído para a elite paulistana; a avenida das mansões e dos bancos e da mídia; o centro da cidade que uma vez pertencera aos alunos da faculdade de direito e aos investidores da bolsa. Se acusavam a torcida do Corinthians de não ter estádio ou casa ou emprego, ela se apossava da vizinhança alheia sem a menor cerimônia.
Essa vocação se confirmaria ao longo dos anos seguintes, primeiro com a feliz coincidência de um craque e ídolo com nome de pensador, diploma de medicina e espírito de guerrilheiro que chegara, vencera, mudara tudo e engajara seus companheiros de time, seu clube, seu entorno e sua torcida na luta pela redemocratização: a Democracia Corinthiana, levada a cabo por Sócrates, Casagrande e Wladimir, mas também por gente como o diretor de futebol Adílson Monteiro Alves, o publicitário Washington Olivetto e os jornalistas – e corinthianos – Juca Kfouri e Osmar Santos (que empregaram suas páginas e microfones a amplificar a mensagem libertária), inspiraria corinthianos e não corinthianos a ir para as ruas e brigar pelo direito de votar para Presidente. Em abril de 1984, durante os comícios do movimento Diretas Já, mais de um milhão de pessoas entraram em êxtase ao ouvir Osmar Santos e Sócrates tabelando ao microfone, quando o Doutor, então assediado pelo futebol italiano, condicionava sua permanência no Brasil à aprovação da emenda parlamentar que reinstituiria a eleição direta para presidente do país.
Depois, a história continuaria, alternando momentos mais profissionalizados e vencedores com outros claudicantes, que remeteriam desconfortavelmente ao período da Fila. O ponto mais baixo, mas ainda assim inspirador, veio em 2007, com o rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro, quando, uma rodada antes do final do certame, um Pacaembu já descrente de qualquer redenção entrou em ebulição aos pulos, embalados pela estreia do grito de guerra que anunciava a torcida como “um bando de loucos”. Já o período mais vencedor do clube aconteceria em 2012, quando o Corinthians, então atual campeão brasileiro, venceu a Libertadores da América de forma invicta, sobre o Boca Juniors, e então culminaria justamente na invasão ao Japão, quando trinta mil corinthianos, entre ricos e trabalhadores, atravessaram o mundo mais para fazer o poropopó num bairro chique de Tóquio do que para ver o Timão batendo o Chelsea, vencedor da Champions League (tendo batido o Bayern de Munique e o poderoso Barcelona no caminho) por um a zero e pagando com juros 112 anos de investimento emocional da sua Fiel Torcida.
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Mas nada disso se compara ao que aconteceu na semana entre 28 de outubro e 5 de dezembro de 1976. Da fundação à luz dos lampiões numa esquina do Bom Retiro ao júbilo das recentes conquistas na luxuosa Arena Corinthians, inaugurada em 2014, nenhum evento é mais emblemático na História do Corinthians do que aquele que foi definido pelo jornalista Juca Kfouri como “o maior deslocamento humano em tempos de paz” – e o episódio que definiu para sempre a identidade de uma torcida (e do seu time). Durante uma semana, entre o fim da terceira fase do Campeonato Brasileiro de 1976 (quando foram definidos os quatro semi-finalistas), a sofrida torcida de um time que não era campeão há 22 anos elevou sua vocação de ocupar o espaço alheio à categoria de evento histórico. Entre a obsessiva busca por ingressos ao longo da semana – protagonizada pelo oportunismo genial do aristocrático anfitrião carioca Francisco Horta, presidente do Fluminense, e do astuto presidente do Corinthians, Vicente Matheus –; entre a épica cena de centenas e centenas de ônibus apinhados de fiéis deixando o centro de São Paulo e ganhando a via Dutra em direção ao Rio de Janeiro, numa impressionante fila de bandeiras içadas, propelando os veículos em direção ao mar; entre o susto dos cariocas desavisados que se depararam com a praia de Copacabana e virtualmente todos os bares da cidade inteiramente tomados por uma estranha gente que usava calças jeans na praia e que fincava suas bandeiras alvinegras na areia, como astronautas orgulhosos após aterrissarem na Lua; entre  a entrada em campo mais absurda que já se viu, quando os semi-finalistas do campeonato brasileiro saíram de um túnel escuro e entraram no gramado do maior estádio do mundo, o Maracanã, vendo-o transformado numa filial gigante do Pacaembu com mais de 146 mil pessoas, metade delas torcendo para o time paulista; entre os três pênaltis defendidos (dois deles válidos) pelo goleiro Tobias durante a decisão que colocou o Corinthians na final do Campeonato; e entre as inesquecíveis descrições dos locutores de rádio – como Osmar Santos e Fiori Giglioti –, que traduziam o que viam no Maracanã para um público de milhões e milhões de corinthianos... Entre tantas cenas e tantas histórias e tantos relatos de tanta gente, o mais importante foi a lição, aprendida enquanto a história era escrita, de que a torcida do Corinthians não precisava de título nem de vitória (e nem mesmo de um time)  para celebrar; a Fiel celebrava a si mesma – e aí se tornou comum a máxima segundo a qual muitos times têm suas torcidas, mas só a torcida do Corinthians tem um time –, e de que essa celebração jamais seria restrita a santuários particulares (como são as arquibancadas do Maracanã para a torcida do Flamengo ou os arredores do estádio Palestra Itália para a torcida do Palmeiras). A torcida do Corinthians pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar. Não precisa ser a final, não precisa ser favorito, não precisa nem ganhar: quando chega a hora da Fiel se unir em transe e cantar seu poropopó, seu bando de loucos, seu nunca vou te abandonar, seu todo-poderoso Timão, ela o fará, e o fará de maneira espetacularmente abusiva, intrusiva e irresistível.
E melhor ainda se for num domingão na praia.

Texto: Ricardo Garrido

Crédito das Fotos: Revista Manchete - Torcida na rua e Cláudio Simões - Congestionamento na Dutra
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